Homem Frio

Café sem açúcar, sangue com gelo.

Textos

A Escolha De Um Déspota
Era uma noite de breu quando o Enviado das Sombras cruzou as pesadas cortinas do alcáçoval, rompendo o silêncio que pesava sobre o castelo daquele príncipe cuja tirania já fizera estancar as lágrimas do povo.

Sob a luz bruxuleante das velas, o monarca, tomado de súbito sobressalto e altivez, ergueu-se de seu leito de brocado e bramiu:

— Quem ousa profanar meus aposentos sem ser anunciado? Como penetraste nestas muralhas guardadas por centenas de lanças?

A criatura, envolta em névoa e brasas, sorriu com desdém e respondeu:

— Modera a tua empáfia, mortal. Venho das entranhas do abismo, enviado por aquele que reina onde a luz jamais alcança.

O príncipe, com a voz trêmula mas tentando manter o semblante feroz, indaga:

— Vieste arrastar-me para o suplício eterno?

O demônio soltou uma gargalhada oca, que fez gelar o ar do aposento:

— Ora, céus, não! Estais a prestar-nos um serviço magnífico. O inferno deleita-se com a vossa crueldade; ainda tendes muito sangue a derramar para nós!

— Pois dize logo o que pretendes!

— Trago duas encruzilhadas, duas escolhas inevitáveis sobre o vosso destino. Em ambas, devereis selar uma opção.

O emissário das trevas ergueu o primeiro dedo descarnado:

— Primeira questão: diante do vosso povo, o que escolhes inspirar? O respeito ou o temor?

O tirano, cego por sua própria prepotência, rugiu:

— Que me temam dez vezes mais!

O demônio inclinou a cabeça, satisfeito com a ruína que se desenhava, e lançou a segunda adaga:

— Segunda questão: na balança do vosso jugo, prefere ser odiado ou desprezado pelo vosso reino?

Sem pestanejar, o déspota sentenciou:

— Mil vezes odiado!

Antes de desvanecer-se na penumbra, deixando o monarca a sós com o peso de sua própria sentença, a criatura sussurrou o veredito final:

— Escolha sensata para quem deseja perecer pela lâmina. Pois lembrai-vos: contra o ódio do povo, ainda se erguem as espadas de mil soldados. Mas contra o frio desprezo da multidão, nem mesmo oceanos de sangue poderão salvar-vos.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 11/09/2026
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