

O Homem Frio 6 - Princesinha
Numa das últimas monarquias absolutistas que resistiam no continente asiático, o rei não conseguia dormir. A paranoia corroía suas noites. O governo dos Estados Unidos, sob pretextos democráticos que já eram velhos conhecidos da diplomacia internacional, movimentava suas peças no tabuleiro para invadir o reino e transformá-lo numa república. O rei, contudo, não era ingênuo: sabia perfeitamente que o presidente americano não dava a mínima para a liberdade do seu povo. O verdadeiro alvo eram as gigantescas reservas de terras raras sob o seu solo.
A única dúvida que o atormentava era saber como haviam descoberto a localização exata das jazidas. Ele jurou a si mesmo que encontraria o traidor — e que ele pagaria com a própria vida. Tentara uma aliança de última hora com o governo chinês, mas Washington já havia se antecipado e fechado as portas. Restava-lhe apenas aguardar uma resposta de Moscou que parecia nunca chegar. Exausto, o monarca passou em frente ao quarto da rainha e seguiu direto para os seus próprios aposentos. Aquele mesmo quarto, testemunha de tantas noites orgiásticas com garotas levadas à força, agora só via um homem velho e desgastado. Ele se consolou com dois pensamentos: ainda tinha a lealdade cega de seus soldados e, na pior das hipóteses, fugiria. Afinal, fortunas incalculáveis estavam espalhadas por bancos ao redor do mundo. Mudar de rosto e de nome seria a parte mais fácil. Adormeceu. Acordou sob o choque congelante de um balde de água gelada na cara. — Boa noite, majestade. Ainda aturdido, o rei tentou se mover, mas percebeu que estava firmemente amarrado a um sofá. Ao seu lado, na mesma situação e com mordaça na boca, estava a rainha. — Espero que suas altezas me perdoem pelo aperto das cordas — disse uma voz tranquila, vinda da penumbra —, mas, infelizmente, é uma medida de segurança necessária. A rainha vai continuar de bico calado por enquanto, mas o senhor tem permissão para falar. — Quem é você?! O que está fazendo aqui?! — esbravejou o monarca, tentando impor uma autoridade que já não tinha. — Ah, bem... Estou apenas deixando o casal real devidamente embalado para presente. Em poucos minutos, as tropas dos Estados Unidos, apoiadas por contingentes da OTAN, vão cruzar estes portões. Pelo visto, suas reservas de terras raras garantem a indústria deles por uns bons cinquenta anos. Ah, e os seus opositores políticos já assinaram todos os acordos com os americanos. O novo governo já está desenhado: presidente, congresso e toda essa burocracia que o senhor conhece bem. A Suprema Corte leal que o senhor construiu? Os juízes serão todos trocados, claro. O homem deu um passo à frente, revelando feições frias e um olhar distante. — O senhor e sua mulher serão levados para os Estados Unidos. Passarão por um julgamento teatral e altamente divulgado pela mídia. Ela vai mofar e morrer numa prisão; o senhor, em outra. Exatamente como vai acontecer com o seu principezinho aqui... Só que ele vem comigo agora. — Para onde vai levar meu filho?! — Ele tem umas dívidas antigas para quitar. Não se preocupe, majestade: ele apenas vai aprender, da forma mais dura, que ações têm consequências. Coisa que vocês nunca se deram ao trabalho de ensinar a ele, não é mesmo? Ah, e a sua guarda pessoal? Estão todos mortos. Eliminei um por um. Do lado de fora, o povo já tomou as ruas gritando pela sua queda, sem nem imaginar o quão fácil foi derrubá-lo. Mas fiquem calmos: os helicópteros americanos pousam aqui em menos de vinte minutos. A rainha começou a emitir sons abafados de puro desespero, debatendo-se no estofado. O homem frio aproximou-se e removeu o pano de sua boca. — Para onde vai levar o meu filho?! Onde está o meu príncipe?! — gritou ela, entre lágrimas. — Imagino que o destino final dele também seja uma cela americana. Vocês até poderão trocar cartas no Natal. Mas, antes disso... bem, a senhora se lembra de como supervisionava pessoalmente a preparação de cada moça, de cada menina aterrorizada que era arrastada para satisfazer os caprichos dele? Lembra de como sussurrava no ouvido delas que, se não cooperassem, os pais e irmãos morreriam nas masmorras do reino? A rainha paralisou. — É... Suas praias particulares custaram o sangue e a dignidade de muita gente. E tenho cá minhas suspeitas de que vários empresários do turismo local sabiam de tudo — tanto os nacionais quanto os gringos. Mas isso é um detalhe que acertarei depois. Ou melhor: os documentos que já vazei vão se encarregar de arrastar esses nomes pelo lamaçal. Enfim, tenho pressa. Dê adeus ao seu garoto. Vocês não verão seu leitãozinho por um bom tempo. No canto da sala, jogado sobre uma poltrona luxuosa, o jovem príncipe tremia, em absoluto pânico. O homem frio avançou, pegou o rapaz como se fosse um saco de batatas e o jogou sobre os ombros. Optou por não reamordaçar o rei e a rainha; os gritos de desespero que ecoavam pelo corredor soavam, para ele, como uma música quase agradável. Minutos depois, ele já estava na estrada, dirigindo um utilitário pesado. No porta-malas, bem armado e trancado, o príncipe se debatia em vão. Pelo retrovisor, o homem viu as luzes e as pás dos helicópteros do Exército americano tocando o heliporto do palácio. O dia começava a clarear quando o príncipe finalmente recuperou a consciência. Viu-se amarrado a uma cama num cômodo decadente. A pouca distância, o homem frio observava a névoa matinal pela janela, tragando calmamente um charuto. O príncipe tentou gritar, mas a mordaça apertada no rosto impediu qualquer som articulado. O sujeito nem se deu ao trabalho de olhar para trás; não estava a fim de conversa. Passos pesados ressoaram do lado de fora. O homem caminhou até a porta e a abriu sem pressa. Um jovem local, alto e de musculatura forte, passou pelo umbral. — Meu nome é Farid, senhor — disse o rapaz, com a voz embargada por uma raiva contida há anos. — Ele está ali? O homem frio apontou para a cama e virou-se para o herdeiro do trono. — Então, "princesinha"... Este aqui é o irmão mais velho de uma das garotas que você mandou sequestrar e escravizar para os seus prazeres perversos. Ela era só uma criança. E quando você a tomou, o jovem Farid aqui não pôde fazer nada além de chorar de ódio e socar o chão, porque ainda tinha os pais idosos para proteger. Pois bem: ele veio cobrar a conta. Ele olhou para o jovem musculoso. — Você tem exatamente uma hora. — Serão os melhores sessenta minutos da minha vida, senhor — respondeu Farid, virando-se para a cama com o olhar em chamas. — Muito bem, gracinha... Nós vamos ter um momento inesquecível agora. O homem frio saiu, fechou a porta e sentou-se num banco carcomido na varanda da choupana. Acendeu novamente o charuto enquanto os gritos abafados e desesperados do príncipe começavam a atravessar as paredes de madeira. Não demorou muito para que o som de motores pesados cortasse o silêncio da mata. Três veículos militares encostaram no pátio de terra. Deles desembarcaram homens trajando fardamento tático preto, armados até os dentes, ostentando a postura altiva dos operacionais de elite. O líder do grupo aproximou-se da varanda. — Senhor C? — Sim. — Sou o Comandante Delta 1, das Forças Especiais. Temos ordens diretas para custodiar o príncipe herdeiro da deposição. Os pais dele já estão algemados, voando neste momento para os Estados Unidos, onde responderão pelos seus crimes. Nossas ordens também incluem localizar o cativeiro clandestino onde os corpos de várias vítimas — americanas e nativas — foram ocultados, para que a perícia faça os exames de DNA e entregue os restos mortais às famílias. — Ciente, Comandante — respondeu o Senhor C, sem se levantar. — O guia de vocês está encerrando uma acareação pessoal lá dentro. Em menos de uma hora ele estará à disposição. — Nós aguardamos. — Tenho mais dois charutos aqui. Lamento não ter o suficiente para a sua equipe inteira. — Nós dividimos, senhor — disse Delta 1, aceitando os charutos e compartilhando-os com seus homens. Pouco tempo depois, a porta da choupana se abriu. Farid cruzou o portal ajustando o cinto da calça, respirando fundo. — Comandante Delta 1, este é o Farid — apresentou o Senhor C. — Como combinado, ele vai guiá-los até a propriedade onde estão os restos mortais da irmã dele e das outras vítimas. O senhor cumpre a palavra e acerta a recompensa dele na chegada. — Combinado, senhor. O oficial voltou-se para a tropa: — Delta 2, aproxime-se! Leve os homens de 3 a 10. Acompanhem o rapaz até o objetivo e cumpram o protocolo de extração. Dois dos veículos partiram poeira adentro, levando o jovem nativo e a equipe de busca. O Comandante Delta 1 olhou para a porta da choupana. — Bem... Acho que tenho uma encomenda para embarcar. Eles entraram na instalação e encontraram o príncipe sádico caído na cama, aos prantos, soluçando baixinho, com o olhar perdido e as calças manchadas de sangue. O Senhor C aproximou-se do monte de ossos e arrogância que sobrava do rapaz: — E então? Como foi sentir na pele exatamente o mesmo horror que você impôs àquelas meninas? Gostou da experiência? O Comandante observava a cena em silêncio e comentou: — Ouvi dizer que o destino final dele deve ser uma penitenciária de segurança máxima em Nevada. Os detentos de lá já foram avisados de que uma "princesinha" de pele macia está a caminho. — Eu também ouvi esse boato — assentiu o Senhor C. O príncipe, percebendo a presença de terceiros, começou a se debater, tentando emitir sons. O homem frio aproximou-se e puxou o pano de sua boca. — Seus desgraçados! Malditos! — esbravejou o príncipe, a voz rouca e histérica. — Eu sou um príncipe! Acham que o meu governo, que a ONU vai aceita isso?! Vocês estão mortos! Eu vou me vingar de cada um de vocês! Eu e meus pais vamos voltar, reassumir o palácio e fazer este país sangrar! O Comandante Delta 1 rolou os olhos, claramente sem paciência. — Ah, faça-me o favor... Amordacem esse tagarela de novo! Os soldados agiram rápido, lacrando a boca do príncipe, vestindo suas calças à força e arrastando-o esperneando até o compartimento de carga do último veículo. — Ele vai precisar de um médico antes do voo, Comandante — alertou o Senhor C. — Temos um na nossa base de apoio. Bem, senhor, nossa missão aqui termina. Tenho ordens do diretor da CIA para lhe entregar este envelope com o pagamento e esta carta. O Senhor C cruzou os braços: — Eu não fui contratado pelo governo americano. Fui contratado por alguém que acabou recebendo muito mais do que esperava. Não aceito esse dinheiro. — Entendo, senhor, mas o serviço prestado acabou servindo aos interesses de Washington. O dinheiro é seu por direito. — Não vou pegar. — O senhor poderia ao menos aceitar a carta e lê-la quando tiver um tempo? E quanto aos vinte mil dólares... não há nada que possamos fazer? O Senhor C pensou por alguns segundos. — A vinte quilômetros a leste daqui fica a aldeia de Kandai — bem ao lado de onde vocês vão erguer as primeiras usinas de extração de terras raras. Lá mora a senhora Kadija, uma velha viúva e mãe. O marido dela morreu lutando contra essa ditadura e a filha única foi sequestrada por esse principezinho aí. Faça esse dinheiro chegar até as mãos dela. — Considera feito, senhor. O senhor aceita a carta? — Aceito, se cumprir a sua palavra. Tem caneta e papel? O oficial sacou e ofereceu um pequeno tablet tático, mas o homem frio insistiu pelo papel. O comandante procurou nos bolsos da farda até que encontrou um pequeno bloco de notas e uma caneta. O Senhor C digitou no tablet os dados de localização exatos para os soldados encontrarem a casa da velha viúva e mãe, e, no papel do bloco de notas, escreveu um pequeno recado endereçado a ela. — Pronto — disse o homem frio. — Foi um prazer, Comandante. — A honra foi nossa, senhor. Após caminhar por alguns quilômetros através da mata fechada, o Senhor C alcançou a enseada oculta onde havia deixado sua lancha de alta velocidade. Ajeitou o equipamento, tirou um telefone satelital do bolso e discou um número internacional. A chamada completou do outro lado do mundo. — Alô? — atendeu uma voz envelhecida e cansada. — Senhor Perkins? — Sim! — Sua filha não vai voltar para casa, senhor... Mas o senhor poderá dar a ela um sepultamento digno e cristão. E posso lhe assegurar: a justiça foi feita até as últimas consequências. O senhor pode comemorar. Do outro lado da linha, ouviu-se o som de um choro contido de alívio. — Muito obrigado... Já posso transferir o seu pagamento? — Sim. Para a mesma conta combinada. Menos de 72 horas depois, em sua mansão nos Estados Unidos, o Senhor Perkins assistia ao telejornal. Na tela, a deposta família real aparecia algemada, sob forte escolta federal. Enfrentariam um processo judicial de mais de uma década, pulando de tribunal em tribunal, sem nunca mais experimentar o sabor do poder, o luxo de um palácio ou a sensação da liberdade. O velho pai abriu uma garrafa do seu melhor vinho e brindou com a esposa em silêncio. Enquanto isso, na humilde aldeia de Kandai, o barulho distante dos maquinários pesados já começava a alterar a rotina da região. Numa casa simples, a senhora Kadija estava sentada em sua cadeira, olhando fixamente para o horizonte. Havia chegado há poucas horas da cremação de sua filha e já não tinha mais lágrimas para chorar. Batidas suaves na porta de madeira a tiraram do transe. Ela se levantou e abriu. — Olá, senhora Kadija — disse um garotinho da vizinhança. — Olá, Khalid... Como está, meu filho? — Estou bem, senhora! Dois soldados americanos gigantes me entregaram este envelope e mandaram entregar na sua mão. Disseram para a senhora não se assustar, porque não são notícias ruins. A mulher olhou para o envelope pardo, intrigada. — E você conhece esses soldados, criança? — Não, senhora! Mas eles me deram uma caixa cheia de chocolates! O papai, a mamãe e a Kalina adoraram. A senhora quer um? A velha senhora deu um sorriso terno, acariciando a cabeça do menino. — Não, meu querido. Aproveite com a sua família. — Senhora Kadija? — o garoto parou antes de correr. — Eu sinto muito pela Fadia... A anciã apenas assentiu com o olhar, sentindo um nó na garganta. Entrou em casa, encostou a porta e sentou-se à mesa. Com as mãos trêmulas, abriu o envelope. Seus olhos cansados se arregalaram. Dentro do pacote havia vinte mil dólares em notas limpas e o bilhete do bloco de notas dobrado, escrito à mão em caligrafia firme: "Muito obrigado pelas bolachas. Estavam deliciosas."
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 26/07/2026
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