

O Homem Frio 5 - Infiel ao Rei
O oficial da guarda real daquele pequeno país asiático estava firmemente preso a uma cadeira. À sua frente, um homem de olhar distante e feição gélida o observava. Parecia não haver ponta de vida ali dentro. Mas quando abriu a boca, a voz saiu firme:
— Diga-me. Há uns dois anos, você sequestrou a filha de um empresário estrangeiro. Fez isso porque o principezinho, o herdeiro mimado dessa monarquia de fachada, cismou com ela. A família dela moveu céus e terra, a polícia fingiu que procurou e no fim disse que ela provavelmente já tinha saído do país. Foi devastador para aqueles pais ir embora sem a filha. Afinal, eles só queriam passar umas férias em paz. Só que o pai dela nunca aceitou isso. E é por isso que eu estou aqui. Ele me contratou para ir até o fim. Cold deu um passo à frente, ajustando as luvas. — Descobri que ela foi arrancada da família só para servir ao leito do seu príncipe. Não foi isso? O homem amarrado encarou o invasor, mantendo o queixo erguido: — Eu não concordo com tudo o que eles fazem, mas sou um servo fiel ao meu rei. Há mais de cinco gerações a minha família produz os guardas mais leais que esta nação já teve. Estou aqui cumprindo meu dever com honra. — Ah, entendi. Você se acha o máximo por ser um cachorro adestrado vestindo terno? Acha que a sua podridão é justificável só porque está servindo ao seu senhor? — Isso é ancestral — rebateu o guarda. — Os maiores guerreiros da história eram fiéis aos seus soberanos. Se eu fosse japonês, seria o samurai perfeito. — Que interessante... — Cold deu um meio sorriso sem calor algum. — A palavra samurai significa exatamente isso: "aquele que serve". Então você acha nobre entregar sua vida para massagear o ego de um tirano? Acha que se sacrificar por capricho alheio vai te dar alguma recompensa no além? — Eu não sei o que me aguarda depois daqui. Só sei que cumpro meu propósito. — Impressionante como a estupidez se veste de nobreza — murmurou Cold. — Você citou os samurais. É verdade, o código deles exigia lealdade cega a imperadores e xoguns. Mas sabe de quem eu gosto de verdade? Dos shinobis. Dos ninjas. Eles só são fiéis a uma única coisa: ao pagamento. Fecharam o contrato? O serviço é feito com perfeição. Fora isso, um ninja é como um gato: seu único compromisso é consigo mesmo. Mas enfim, não vamos fugir do assunto. O que fizeram com a moça? — Depois que o príncipe se cansou dela, foi enviada para o retiro nas montanhas. Onde ficam todas as outras. — Ah, sim. Aquele abrigo onde encontrei dezenas de covas rasas? Elas ficavam lá até morrer, e o fato de morrerem tão jovens era só uma "triste coincidencia", imagino. — Eu não sei dos detalhes do retiro — esquivou-se o oficial. — Sou apenas um soldado leal. — Claro. Os ditadores mais sanguinários da história só existiram por causa de burocratas leais como você. Aliás, para entrar nessa sua guarda exige-se curso superior, não é? Diploma não é atestado de inteligência. Mas veja só: eu te capturei por dois motivos. O primeiro era confirmar se uma das sepulturas era daquela jovem. E já confirmei. Vocês a chamavam de Jade. Não se preocupe, o outro guarda que peguei antes de você falou até demais. Nem precisei bater; em troca, dei a ele uma morte rápida. Pensei que você seria mais duro de dobrar. O homem na cadeira manteve o silêncio obstinado. — Agora, o segundo motivo: onde ficam os aposentos do príncipe e do rei? Mostra aqui na planta. O guarda deu uma risada debochada: — Você acha que sou idiota? Eu jamais diria. — Tem certeza? — Absoluta. Cold saiu da sala em silêncio. Um minuto depois, retornou puxando um jovem de seus vinte anos, amarrado e amordaçado, que mantinha os olhos fixos no chão. — Esse é o seu filho, não é? — perguntou Cold. — Está sendo treinado para ser outro capacho de luxo, capaz de atrocidades só pela vaidade de servir? Quantos anos ele tem? Uns vinte e um? O oficial começou a suar frio. — Sabia que ele sempre viveu em função de te agradar? Ele é o melhor aluno daquela escola que molda cães de guarda de terno da corte há mais de um século. Mas ele não fazia isso pela monarquia; fazia pelo pai. Um pai que sempre foi frio e duro, usando a desculpa de que ele precisava crescer forte para a guarda real. Cold se aproximou do homem amarrado. — Ele se destacou tanto que foi escalado para guarnecer a porta do principezinho. Ele viu dezenas de garotas aterrorizadas sendo arrastadas para lá. Viu tentarem fazer lavagem cerebral nelas, viu o desespero de meninas normais, que iam para a escola, assistiam à Netflix e que foram transformadas em concubinas de um sádico. Ele suportou tudo em silêncio. Ele também não concordava com nada disso, sabia? Afinal, ele tem uma irmã. A única sorte da sua filha foi não ter cometido o "pecado" das outras: ser bonita demais. Mas o seu filho aguentou a sujeira porque só queria o seu orgulho. Só que ele nunca foi o suficiente para você. O olhar de Cold pesou sobre o oficial. — E quer saber do mais irônico? Ele só descobriu por mim que a própria mãe, antes de se casar com você, foi escrava sexual do rei até ele se cansar dela. Ela foi arrancada de sua aldeia e se submeteu a tudo para proteger a família dela. E você sempre soube disso, não soube? O jovem levantou os olhos, encarando o pai com uma dor profunda. — Eu não concordei com o que aconteceu com ela — disse o pai, impassível. — Mas era o rei. Escolhido por Deus. Ele podia fazer o que quisesse. — É inacreditável como em pleno século XXI ainda existem esses reizinhos de sarjeta — pontuou Cold. — Potências como Rússia, EUA e China não ligam para o turismo daqui, mas vão adorar saber das reservas de terras raras que o seu rei esconde. Quando meu relatório chegar a Washington, essa família real vai ser varrida do mapa e isso aqui vira uma "democracia" da noite para o dia. Mas vamos ao que interessa: onde ficam os quartos do príncipe, do rei e da rainha? Me fala, ou eu mato seu filho agora. Ele sacou a pistola, encostou a boca do cano na têmpora do garoto e engatilhou. — A rainha também — continuou Cold. — Ela sempre soube de tudo e achava que o filho tinha o direito de fazer o que quisesse. E aí? Fala a planta ou este jovem morre aqui. O jovem olhou no fundo dos olhos do pai. O oficial, sem mover um músculo da face, respondeu: — Meu filho sabe o pai que tem. Ele sabe que é uma honra morrer pela lealdade da nossa família. Cold encarou o oficial por um segundo, abaixou a arma e olhou para o jovem. — E pensar que até alguns minutos atrás você daria a vida por esse homem. Com um movimento rápido de canivete, Cold cortou a mordaça e cortou as cordas dos pulsos do jovem. — Você vai me dar as informações que eu preciso? Se fizer isso, te levo para os Estados Unidos, arranjo documentos novos e um dinheiro para recomeçar. Ainda bem que é exigido de vocês, guardas do rei, falarem inglês. — Sim — respondeu o garoto, sem hesitar. — O quê?! — o pai se desesperou na cadeira, tentando se soltar. — Você vai trair o seu rei?! O jovem olhou para o pai com um desprezo frio: — Eu nunca fui fiel ao rei ou ao príncipe, pai. Eu sempre fui fiel a você. Eu só queria que você olhasse para mim uma única vez, sorrisse e dissesse: "Bom trabalho". Mas você nunca fez isso. — Você é meu filho! Nasceu para servir ao rei! — Que se dane o rei! — falou o jovem. — Vê só? — disse Cold ao oficial. — Ele não se importa mais com nada disso. Depois, virou-se para o jovem: — Vê só? — disse Cold ao jovem guarda. — Você não tem valor para seu pai, nem você, nem sua mãe, nem sua irmã. — O que vai acontecer com elas? — perguntou o garoto. — Tem o corpo de outro guarda lá fora, um da sua idade, que participava diretamente dos sequestros. Vou colocar o corpo dele e o seu pai aqui dentro e colocar fogo em tudo. Oficialmente, pai e filho morreram juntos em combate, leais ao trono. Sua mãe e sua irmã vão receber uma pensão do governo. É o melhor que posso fazer por elas. — Perfeito — disse o jovem. Com uma expressão fria, ele se aproximou do mapa estendido na mesa. Com precisão, desenhou as rotas, apontou os quartos do príncipe, do rei, da rainha e detalhou todo o esquema de segurança e as falhas das patrulhas. O pai tentou gritar, mas Cold já tinha selado sua boca com uma fita adesiva larga. — Excelente — disse Cold. — Viu o furgão lá fora? Tem roupas limpas lá. Tire esse uniforme. Mas antes, me ajude a arrastar o corpo do outro guarda para cá. O garoto obedeceu sem questionar. Puxou o cadáver de um dos guardas mais sádicos do príncipe e o jogou aos pés do próprio pai. Em seguida, caminhou para fora sem olhar para trás. Sozinho com o oficial, Cold o encarou: — Eu até me divertiria te torturando, mas não preciso de vestígios. Só vão encontrar ossos aqui de qualquer forma. Sinta-se orgulhoso: você vai morrer pelo seu rei. Pfft. Um único tiro abafado na têmpora encerrou a linhagem de servos leais. Cold saiu para a noite úmida, pegou os galões de combustível que já tinha deixado preparados no matagal e encharcou a cabana. Ele puxou um rastro de gasolina para longe da madeira, acendeu um fólio e viu as chamas consumirem o lugar rapidamente. Caminhou até o furgão. O garoto já estava trocado, sentado em silêncio. — Viu que tinha água e comida aí atrás? — perguntou Cold, entrando no veículo. — Vi. — Por que não comeu? — O senhor não deu permissão. Cold suspirou, ligando o motor: — Preste atenção: a partir de hoje, você não pede permissão para nada. Você é dono da sua própria vida. Enquanto eu termino de arrumar as coisas aqui, trate de comer e beber. Ele assentiu. Pela primeira vez na vida, um homem mais velho demonstrara alguma preocupação real com o seu bem-estar. Ele comeu, bebeu a água, limpou o copo cuidadosamente com um guardanapo e guardou tudo no lugar com disciplina militar. — Comeu? — perguntou o motorista. — Sim, senhor. — Não me chame de senhor. Me chame de Cold. E diga só isso. — Sim, Cold. — Entre no banco do passageiro. Primeiro vou cuidar do seu destino. Depois, me resolvo com o seu principezinho. — Ele nunca foi meu príncipe — respondeu o jovem, encarando a estrada. — Muito bom. Ao ouvir aquilo, um leve tremor percorreu o peito do jovem. Pela primeira vez na vida, alguém que poderia ter a idade do seu pai olhou para ele e deixou claro: ele tinha feito um bom trabalho.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 26/07/2026
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