

O Homem Frio 4 - Curso EAD
O Doutor Robert Blink acordou numa sala de cirurgia impecável, mas completamente no escuro. Ele não estava amarrado, nem acorrentado, mas simplesmente não conseguia mover um único músculo do corpo. O terror veio quando percebeu que, embora paralítico, continuava 100% consciente e com o tato e os sentidos terrivelmente afiados.
À sua frente, de costas, um homem vestia um traje cirúrgico, máscara e todo o equipamento de um médico em operação. Não havia paredes por perto; o eco entregava que estavam no vão livre de um galpão abandonado. Robert tentou falar, perguntar o que estava acontecendo, mas a língua não obedecia. O sujeito se virou devagar, baixou a máscara por um segundo e soltou: — Doutor Robert Blink. Cirurgião especializado em transplante de fígado, correto? O médico tentou emitir um som, sem sucesso. O homem deu uma risadinha fria. — Ah, é. Esqueci. Apliquei em você o extrato de um certo peixe do Caribe. Pelas próximas horas, você não vai mexer um dedo. Em compensação, o tato, o paladar, a dor… vai sentir tudo perfeitamente. Só o movimento que congelou mesmo. Imaginando a sua curiosidade — para dizer o mínimo —, vou virar sua cabeça para você dar uma olhada ao redor. Calmamente, o homem segurou a cabeça do cirurgião e a virou de um lado para o outro. Robert viu equipamentos médicos de ponta, todos familiares. — Você esteve numa sala como essa, perfeitamente equipada, lá na Colômbia… uns quinze anos atrás, não foi? — continuou o homem, com uma calma assustadora. — Tirou o fígado de um garoto sequestrado para transplantar num mafioso, enquanto a mãe dele berrava no calabouço e você nem ligava. Pois é, doutor. Eu consegui destravar o seu notebook. Você guardou tudo, né? Claro, um arquivo desses sem conexão com a internet é a sua garantia para chantagear quem quisesse. E você sabia que mandar para a polícia, para o FBI ou para o Ministério Público não adiantaria muito; essa gente enrola. Mas a imprensa… a imprensa joga rápido. E eu concordo com você. Já enviei tudo. O homem se aproximou um pouco mais. — E não mandei para nenhum repórter bonzinho, não. Mandei para o filho da puta mais ambicioso da mídia. Um cara que, mesmo se você oferecesse um milhão de dólares de suborno, preferiria dez vezes a fama e o dinheiro que vai ganhar publicando a matéria. Juntei ao seu arquivo umas filmagens que eu mesmo consegui. Deu trabalho achar os aparelhos que você usou para filmar seus próprios procedimentos sem que seus sócios percebessem… Mas, enfim. Quero só te avisar que o material foi cirurgicamente editado. Amanhã cedo, quando os jornais físicos chegarem às bancas e as edições digitais explodirem na internet, vai ser uma manhã agitada. Você não vai ver, claro. Ah, e a polícia recebeu fragmentos sobre a sua rede nos Estados Unidos. Robert piscou, tomado pelo pânico. — Agora, você… bom, você não vai ver nada disso. Mas não pense que é uma punição sem sentido. Você terá um propósito bem mais nobre. Sabia que eu acabei de fazer um curso de anatomia humana EAD? Eu adoro estudar à distância, aprender sozinho. E hoje, em especial, quero me aprofundar na anatomia do fígado. Na sua biomecânica. E que fígado seria melhor para estudar do que o fígado fresco de um cirurgião hepático? O homem sorriu por baixo da máscara. — Você vai dar uma grande contribuição à ciência. O lado bom é que não vai precisar se debater. O lado ruim é que vai sentir cada corte. Um detalhe insignificante para mim, mas imagino que gigante para você. Para te dar alguma perspectiva, veja isso. O sujeito pegou um retrato emoldurado de uma mulher com um menino e pendurou no teto, exatamente acima do rosto do médico. — Reconhece o garoto? A mãe acho que você não chegou a ver na época, né? Ah… não fecha os olhos, não. Ou prefere que eu os arranque? Desculpe a grosseria, gosto de fazer as coisas de forma metódica. Vou só cortar suas pálpebras. Sem perder o tom frio, o homem — cujo nome era Cold — começou a cirurgia. Ele não tinha licença, apenas o conhecimento absorvido em livros e vídeos da internet, mas não estava nem um pouco preocupado com imperícias médicas. Não era para salvar ninguém. Mexia nas vísceras do médico com fascínio genuíno, lembrando-se de Leonardo da Vinci e se perguntando se o mestre renascentista realmente comprava cadáveres no mercado negro. Mesmo sob o efeito da neurotoxina, a dor era tão brutal que os nervos de Robert começaram a dar espasmos involuntários, mas nada que atrapalhasse as mãos firmes de Cold. O cirurgião continuou incrivelmente vivo e consciente durante quase todo o processo, pois a toxina tinha como efeito justamente impedir que seu organismo desmaiasse ou se desligasse da realidade. Preso no inferno lúcido da própria dor, ele sentiu tudo até que o fígado foi completamente removido. Pouco depois, seu corpo finalmente cedeu. Cold colocou o órgão num saco plástico vedado, guardou-o numa caixa térmica com gelo e começou a recolher as coisas. Pensou em doar os equipamentos caros para um hospital filantrópico, mas ficou com receio da energia ruim que aquele ambiente carregava. Preferiu não arriscar. Lavou-se com cuidado, colocou as ferramentas no furgão e voltou para o galpão carregando galões de combustível. Espalhou o líquido com um balde por todo o espaço, criando duas linhas de fogo estratégicas: uma para a estrutura do galpão e outra direto para o cadáver. Antes de ir embora, olhou para a cara aterrorizada do morto. — Talvez seu espírito fique vagando por aí… É melhor garantir. Cold jogou punhados de sal grosso sobre o corpo de Robert e regou o morto com gasolina. Já do lado de fora, acendeu um charuto caro — um hondurenho de excelente procedência — e, mantendo o isqueiro aceso, jogou-o sobre a estopim de combustível. O fogo subiu rápido, engolindo a cena do crime em segundos. Mais tarde, em sua base temporária perto do pântano — uma casinha estrategicamente camuflada —, Cold organizou a etapa seguinte. Ele atuava inteiramente sozinho, calculando cada risco sem depender de ninguém. Tinha estudado a fundo a estrutura daquela quadrilha de tráfico de órgãos e sabia exatamente quem realmente mandava no esquema: a própria esposa do falecido Robert, a Dra. Katherine Blink. Cold dirigiu por uma hora e meia até uma praça abandonada no meio de um bosque esquecido — um lugar tão decadente que nem drogados frequentavam mais. Deixou a caixa térmica sobre um banco de madeira. Ali mesmo, ao lado do banco, ele pegou um celular descartável, cujo chip pertencia a um morador recente do cemitério local, e discou para a Dra. Katherine. — Alô? — atendeu a médica do outro lado. — Está lá. Onde eu disse que deixaria — disse Cold, encurtando a conversa. — Tô te mandando a localização exata no WhatsApp agora. — Você não está tentando me enganar, está? — perguntou Katherine, desconfiada. — O fígado está lá. Venha pegar se quiser. Se não quiser, deixe lá. Não tem impressões digitais nem nada que vá me complicar. Mas veja bem: é melhor deixar o dinheiro, ou não arrumo mais órgãos para você. Entendeu? — Tudo bem — respondeu a Dra. Katherine, antes de desligar. Enquanto a mensagem com o mapa chegava para ela, Cold finalmente se afastou da praça, indo se esconder na vegetação fechada para observar a movimentação de longe. Em seu escritório luxuoso, a Dra. Katherine Blink colocou o celular sobre a mesa. Ela nem imaginava que seu marido já virara cinzas, e muito menos que a polícia estava monitorando seus passos, apenas esperando o momento certo para dar o bote. Katherine era extremamente precavida; não costumava negociar de forma tão direta, mas precisava desesperadamente daquele órgão. Ela imaginou que o sujeito fosse um médico de verdade, que certamente fazia parte de algum esquema criminoso de obtenção de órgãos — não tão sofisticado quanto a organização dela, mas que servia perfeitamente para aquele momento. Ela julgava extremamente útil que a organização mantivesse sempre essa espécie de "escravos zumbis", por assim dizer: tipos vulneráveis e manipuláveis que faziam o trabalho sujo sem ter noção da dimensão do esquema. Preferindo não arriscar a própria pele, mandou um desses intermediários recolher a caixa. Uma hora depois, um homem guiando-se pelo GPS do celular aproximou-se do banco. Curiosamente, o homem frio conhecia aquele sujeito. Era um viciado em drogas farmacêuticas, remédios tarja preta que ele comprava diretamente de uma das enfermeiras que fazia parte da organização dos Doutores Blink. Caso o cara fosse pego pela polícia, bastaria à Dra. Katherine dar um fim na enfermeira para queimar a ponte, já que o viciado não conhecia absolutamente mais ninguém da quadrilha. O homem colocou um envelope sobre o banco, pegou a caixa térmica e foi embora sem olhar para os lados. Assim que a área ficou limpa, Cold saiu do seu esconderijo e caminhou até o banco. Abriu o envelope lacrado e confirmou as notas: cem mil dólares. Sem demonstrar a menor comoção, jogou o envelope no chão, regou o dinheiro com álcool e ateou fogo. Enquanto as notas viravam cinzas, ele deu a última tragada no outro charuto que havia acabado de acender durante a longa espera, e caminhou de volta para o furgão. O homem frio sabia que, dentro daquela caixa térmica, junto com o fígado recém-cortado, ia um saco de plástico muito bem vedado com um bilhete em seu interior. Um bilhete simples, que a Dra. Katherine logo abriria: "Cortesia cedida pelo Doutor Robert Blink de seu próprio corpo."
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 26/07/2026
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