Homem Frio

Café sem açúcar, sangue com gelo.

Textos

O Homem Frio 3 - Padres
Num dos hospitais mais caros de Beverly Hills, um homem consumido pelo câncer encarava o teto. Sua filha segurava sua mão bem perto dos lábios. Ele a amava demais, amava a esposa, amava a família que tinha construído.
A mãe da menina entrou no quarto:
— Isabelle, querida, o padre chegou para confessar o seu pai. Ele pediu que a gente esperasse lá fora.
A garota colocou a mão do pai sobre o peito dele, com todo o cuidado do mundo. Beijou sua testa e saiu com a mãe para o corredor.
Na porta, a esposa falou para o padre:
— Ele está pronto.
— Muito bem — respondeu o religioso. — Vocês duas podem descer para lanchar um pouco. Uma confissão no fim da vida pode demorar bastante.
— Sim, nós vamos. Qual é mesmo o seu nome?
— Sou o padre Cold. O padre Jeffrey teve um problema de saúde e não pôde vir.
— Nós entendemos. Pode entrar, padre. Vamos para a cantina, filha.
A menina cumprimentou o padre e as duas saíram. Enquanto caminhava, Cold deu um sorriso discreto lembrando do velho padre Jeffrey, amarrado e amordaçado na sacristia da Igreja de Saint James. Ia demorar horas até que as freiras aparecessem para limpar o escritório. Pobre coitado, pensou. Tão dedicado... não merecia isso, mas fazer o quê?
Cold entrou no quarto de luxo. Ali na cama estava um homem esquelético, acabado pelos tumores, uma sombra do que já foi um dia. A confissão começou.
— Me perdoe, padre, porque eu pequei...
— Pode me falar tudo, meu filho.
— Padre... isso tem que morrer aqui.
— São os meus votos. O segredo da confissão é sagrado.
O doente suspirou fundo:
— Há quinze anos eu era um gangster na Colômbia e precisei de um fígado novo. O filho de um morador da cidade que eu controlava era compatível. Era só o garoto e a mãe, porque o pai já tinha morrido... Na verdade, eles nunca souberam que fui eu quem mandou matar o pai. E sabe por quê? Não porque o homem tenha feito algo. É que eu queria a mulher dele. Só por isso. Mandei matar o marido, mas não consegui ficar com ela porque descobri a doença e precisei do transplante às pressas. O órgão do garoto me serviu perfeitamente.
Cold escutava em silêncio enquanto o homem continuava:
— Mandei trancar a mulher num calabouço e trouxe um médico dos Estados Unidos, um tal de Doutor Robert Blink. Paguei um milhão de dólares para ele fazer a cirurgia. Equipei uma sala inteira para isso. A enfermeira que ajudou foi chantageada — sequestrei a filha dela —, mas ela se sentiu tão culpada depois que passou a fumar demais e morreu de câncer de pulmão. Paguei trezentos mil dólares a ela, mas ela nunca tocou no dinheiro. E o garoto... morreu na mesa de cirurgia.
— Entendo... — disse o padre. — E você era do cartel?
— Eu não era o chefão, mas era um dos membros mais importantes. Quando me curei, o pessoal do cartel até me chamava de "o sobrevivente". Todos os meus outros pecados eu confesso com os padres daqui, mas este... eu não tive coragem. O padre Jeffrey é meu amigo há anos, desde que cheguei da Colômbia. Fiquei com vergonha. Achei até que foi providência divina ele ter ficado doente hoje para que eu conseguisse me descarregar com outro.
Cold olhou bem no fundo dos olhos do homem.
— A providência serviu muito bem ao padre Jeffrey, meu filho. E a mim também. Mas para você, não. Você está esperando absolvição e extrema-unção para ir para o céu. Acha mesmo que está arrependido?
— Sim... eu estou.
— Não, você não está. Se estivesse realmente arrependido, teria se entregado à polícia. Tria contado a verdade para a sua esposa e para a sua filha. Mas prefere esconder. E a mãe daquele menino? Depois que você sarou, mandou trazer a mulher, pediu desculpas e ofereceu um milhão de dólares. Ela te chamou de monstro. Você argumentou que deu um funeral lindo para o menino, com direito a autoridades pagas pelo cartel no enterro. Ela te amaldiçoou com todas as forças. E você, furioso, estuprou a mulher e mandou matar. Ela morreu sem nem ver a sepultura do filho. Depois você se consolou dizendo que deu uma "morte rápida" para ela e culpou a bebida.
O homem na cama arregalou os olhos, em pânico:
— Quem... quem é você? Como você sabe disso?!
— Eu sou um padre que conversou com o padre Benito. Lembra dele? Aquele que você mandou espancar e jogar numa vala para morrer, fingindo que foi assalto, depois de espalhar que tinha doado ouro para a igrejinha dele? Pois é. Ele sobreviveu.
O homem mal conseguia respirar enquanto Cold continuava, com uma voz fria e calma:
— Um homem que estava passando de moto naquela estrada encontrou o padre ensanguentado e salvou a vida dele. Esse mesmo homem já tinha exterminado uma gangue de dez bandidos seus naquela região, porque um deles resolveu mexer com a garota errada. Esse homem deu dinheiro para o padre Benito fugir e recomeçar a vida numa aldeia distante.
Cold se aproximou mais da cama, encarando o mafioso moribundo:
— Aqui se faz, aqui se paga. Eu sou aquele homem. E estou aqui para te dizer: não existe perdão para você. Você acha que já pagou seus pecados sofrendo com esse câncer há quatro anos? Que a sua filhinha é uma guerreira por acompanhar a sua luta? Isso tudo é só a entrada. O prato principal é o inferno. E as almas daquela mãe e daquele menino nem vão estar lá te esperando para se vingar, porque elas estão num lugar bom. Você vai para lá sozinho.
O homem tentou falar, mas a voz travou na garganta.
— Ah, e tem mais — disse Cold, no tom mais soturno possível. — Sua esposa e sua filha vão saber exatamente quem você foi. Sabe o envelope que deixaram para elas lá na cantina? Um dossiê completo. Elas devem estar lendo agora mesmo. Mas como eu sou um homem de misericórdia, vou acabar logo com isso.
Cold tirou um lenço com esparadrapo e tapou a boca do homem para sufocar qualquer grito. Pegou uma seringa do bolso, tirou a tampa e injetou o líquido direto na bolsa de soro.
— Essa fórmula é rápida. Você vai morrer de um jeito horrível e sem conseguir pronunciar uma única palavra. Eu sou seu confessor. Sou o anjo da vingança, a poesia dos oprimidos. Vim te trazer o absoluto desespero no seu último segundo.
Cold tirou o esparadrapo da boca do homem, limpou qualquer vestígio, ajeitou a batina, pegou o breviário e a estola e caminhou calmamente em direção à saída.
No corredor, passou por uma médica:
— Boa noite, padre. A família me disse que o senhor veio confessar o paciente. Correu tudo bem?
— Oh, sim, minha filha. Correu tudo bem. Ele só pediu um momento a sós para fazer as últimas orações.
— Claro, sem problemas. Ele está medicado, vai ter uma partida sem dor.
— Sim... sem dor nenhuma — respondeu Cold, com um sorriso quase imperceptível de pura ironia.
Ele se despediu e entrou no elevador.
Enquanto as portas de inox se fechavam, Cold rememorou mentalmente o nome de um cirurgião de fígado que havia feito um transplante criminoso muitos anos atrás na Colômbia. Parece que em algum lugar um médico também ia passar por um procedimento e não seria nada agradável.
Ao entrar no carro, Cold se lembrou de sua infância como órfão. Lembrou-se de como sua inteligência sempre se destacava, o que levou os padres a ampliarem seus estudos e enviá-lo ao seminário. Ele recordava o dia em que recebeu as ordens sacras e o quanto esteve disposto a se dedicar — afinal, a Igreja o havia amparado estruturalmente, ainda que psicologicamente a história fosse bem outra. Na época, ele escolhera perdoar e seguir com o sacerdócio. Contudo, o brilho de sua mente fez com que o idealismo desse lugar ao pragmatismo. Foi então que compreendeu que não seria através da batina que ele ajudaria a humanidade.
Pouco tempo depois, a esposa e a filha voltaram para o quarto. A mulher trazia o envelope na bolsa, sem nem imaginar o que tinha ali dentro. Mas assim que pisaram no quarto, o choque foi imediato: o homem estava na cama com os olhos saltados das órbitas e a boca lambuzada de vômito, completamente sem vida.
A mulher desesperada apertou o botão da enfermagem enquanto a filha começava a chorar sem parar.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 26/07/2026
Alterado em 26/07/2026
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