Homem Frio

Café sem açúcar, sangue com gelo.

Textos

Noitário do Lobisomem III - Quem Tá Quieto
Ao contrário do mito e do folclore, nós lobisomens não gostamos de carne humana; seu paladar é péssimo, e o sangue que seduz os vampiros, para nós, é apenas um líquido açucarado e sem viço. Digo "nós" porque, embora naqueles tempos eu já caminhasse sem semelhantes, sentia no instinto a presença de outros lobos espalhados pelo mundo —matilhas, e solitários, todos só resguardando o seu próprio canto, se atacamos, é porque violaram a nossa quietude.
Dias atrás, sob um céu plúmbeo e chuvoso, eu retornava do supermercado carregando peixe, carneiro e porco, enquanto minha metade humana ainda tolerava o frescor das frutas e verduras, e sim, gosto de peixe, é carne.
Aguardava o transporte por aplicativo quando uma BMW rasgou a poça rente à calçada, banhando-me com a água suja do asfalto, gritei e ri diante da afronta, mas meus sentidos despertaram na hora.
O veículo que solicitei chegou, mas o motorista recusou-se a me levar para não sujar os bancos, cancelou a corrida, deixando-me longe de casa.
Contudo, sob a carcaça de homem, o lobo tem uma força descomunal e um passo veloz; bastou calibrá-lo para não despertar suspeitas humanas.
Três dias depois, sob o império da lua cheia, retornei àquele mesmo ponto,  a energia mortiça do miserável ainda flutuava ali — aquela energia densa que a maldade deixa como rastro, como um cheiro de brilho famélico para mim, segui-lo foi simples.
Ele estava em sua casa, cercado de amigos, gabando-se da covardia contra mim.
De uma árvore, observei tudo antes de saltar diretamente sobre a área da sua churrasqueira.
O pânico foi imediato, os pais dele saíram do interior da casa, e o pai, armado, disparou contra o meu peito, foram balas inúteis.
Eu aterrorizei.
Eu não queria sangue, só traumatizar, destruí o carro que ele usou pra me sujar, e plantei nos pesadelos daquele moleque um vislumbre de terror que ele jamais esquecerá.
Na época, eu ainda não tinha o coração frio que tenho hoje.
Mas no mundo comum, e no mundo das trevas, vinga a mesma lei de ferro: não mecha com quem tá quieto.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 29/06/2026
Alterado em 29/06/2026
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