

Noitário do Lobisomem II - A Primeira Lua Cheia
Vou desmistificar mais algumas coisas que dizem por aí. Quando você se torna um lobisomem, a primeira transformação traz uma dor quase insuportável; os ossos parecem se quebrar em milhares de pedaços enquanto mudam de forma. Mas, ao mesmo tempo, você já não é humano — essa nova natureza o faz aguentar o impacto. Mataria qualquer homem comum, mas não a criatura que nasce ali.
Bem antes disso, seus instintos, força e agilidade começam a mudar. Você passa por tudo anestesiado; as pessoas até notam uma diferença no seu jeito, só que o faro animal ajuda a agir com toda a normalidade possível para se proteger. Tudo é muito novo. Esse mesmo impulso me fez procurar um espaço rural e afastado para passar pela primeira vez. Segui o rastro dessa certeza e achei uma região onde senti que ficaria bem; escondi-me em um canavial e esperei. A noite não demorou a cair. Também não é verdade que a mente apaga e a gente esquece o que houve; você se lembra de tudo, inclusive do primeiro uivo para a lua, um som incrível. Nunca mais vai cantar algo tão belo; todos os outros clamores terão sua beleza, mas nenhum se compara ao primeiro — não por ser esteticamente perfeito, mas por ser o pioneiro. Ganhei a mata. Saí andando, correndo, saltando pelas árvores, cruzando pontes num segundo, descendo pelos córregos e nadando no rio com agilidade demoníaca. Uma sensação de liberdade pura. Mas a fome chegou...Aquela região era castigada por javaporcos — feras perigosas, híbridas do animal africano que trouxeram para cá sem critério e que cruzaram com os suínos das fazendas, as quais destroem lavouras e ameaçam quem mora perto. Vi um bando. Bicho sente o perigo; perceberam no ar e tentaram fugir. Saltei sobre um macho velho, que já não liderava o grupo, mas era grande. Os outros escaparam. Dei a ele uma morte rápida, limpa, e comi. Segui na minha solita noturna, sentindo o sangue quente escorrer pela boca. Senti a hora de voltar, ia amanhecer. E mais uma sorte: era feriado. Voltei à moto e me vesti, vendo minha primeira lua cheia ainda a brilhar.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 29/06/2026
Alterado em 29/06/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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