Homem Frio

Café sem açúcar, sangue com gelo.

Textos

Noitário do Lobisomem
Deixe-me esclarecer as coisas e acabar de vez com essa lenda que as pessoas inventam sobre lobisomem.
Esquece essa história de sétimo filho de sétimo filho, pacto com as trevas ou maldição hereditária.
É uma herança. Mas uma herança por escolha, entende? O critério é a solidão, não a linhagem ou o sangue.
​Comigo aconteceu exatamente assim. Eu voltava para casa bêbado, como aconteceu tantas outras vezes, caminhando sozinho pela rua.
No bairro, as pessoas já me conheciam; até os sujeitos mais perigosos me respeitavam e não mexiam comigo, já tinham um certo receio de mim há muito tempo.
Passei pelo parque, no meu ritmo, e o bicho caiu em cima de mim — veio do alto de uma árvore, certeza. Me mordeu feio no ombro e me arrastou até uma clareira que tem lá, um lugar conhecido, onde alguns casais costumavam se esconder à noite, mas naquela madrugada, para sorte deles mesmos, não apareceram.
Acordei sujo de terra, com o corpo cheio de formigas me mordendo, eu não sentia absolutamente nada, não tinha nem sinal de inflamação, até que elas desistiram de mim. Eu vi um bilhete.
Imagino que a o maldito escreveu antes de virar.
Tava escrito assim:
"Observo você há um tempo, como eu, você não tem ninguém, e agora te transfiro o meu legado, fiz de você o meu herdeiro.
Tenho vivido por trezentos anos e a vida já me cansou, mas eu não poderia buscar a morte sem passar esse fardo adiante. Quando você ler isto, finalmente uma bala terá tido efeito sobre mim."
Coloquei o papel no bolso, meio tonto, e voltei para casa.
Ainda era uma manhã de domingo, o condomínio estava naquele silêncio, com todos os vizinhos dormindo.
Entrei sem fazer barulho, tirei as roupas sujas na varanda dos fundos, tomei um banho demorado, escovei os dentes e joguei a roupa na máquina. Deitei e dormi como nunca antes, na verdade, apaguei o dia inteiro, acordei, e me sentia normal. Só que, lá no fundo, eu sabia que algo viria em breve.
E aconteceu... A lua cheia veio mais linda que nunca, meus novos sentidos já se
desenvolviam.
Minha história começava...
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 29/06/2026
Alterado em 29/06/2026
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