Homem Frio

Café sem açúcar, sangue com gelo.

Textos

O Ornitorrinco Alado
Eu sei que a forma que aprendi a assumir depois que o grimório me ensinou a sair do corpo é, no mínimo, pouco ortodoxa. Estranha, até. Mas o que posso fazer? Foi a primeira imagem que surgiu em minha mente, como se o próprio mistério a tivesse exigido.

Um ornitorrinco alado.

Sim, eu sei. É estranho. Mas ornitorrincos já são estranhos por natureza. E eu também nunca fui exatamente uma criatura comum.

Há, contudo, algo que compartilhamos: assim como os ornitorrincos, aprecio a solidão.

Na noite passada, quando deixei meu corpo e adquiri essa forma peculiar para percorrer os caminhos da noite, senti um impulso diferente. Um chamado silencioso, porém irresistível. Como, naquele estado, minha velocidade não conhece distância, tempo ou espaço, fui em sua direção.

E encontrei.

Não direi onde.

Mas encontrei.

Encontrei Atlântida.

Não a Atlântida das ruínas submersas e das colunas quebradas. Não a cidade derrotada pelo tempo. Encontrei uma Atlântida vazia.

As ruas permaneciam intactas. As casas continuavam de pé. O palácio de seus governantes conservava sua imponência. Tudo estava extraordinariamente limpo, como se os habitantes tivessem saído apenas algumas horas antes e ainda pretendessem voltar.

A cidade encontrava-se no interior da Terra, envolta por um silêncio tão profundo que parecia possuir substância própria.

Caminhei por suas avenidas sem medo. Não encontrei fantasmas. Não encontrei espíritos. Não encontrei monstros, maldições ou guardiões ocultos.

Apenas silêncio.

Um silêncio antigo.

Um silêncio que parecia ter aguardado milênios pela chegada de alguém.

No centro da cidade, encontrei algo que não me surpreendeu nem um pouco: uma biblioteca.

Era imensa.

Milhares de pergaminhos repousavam em estantes intermináveis. Havia textos tão antigos que pareciam ter atravessado eras esquecidas. O ambiente era sombrio, mas, de repente, algo extraordinário aconteceu.

Acima de mim, estrelas começaram a brilhar.

Ou talvez não fossem estrelas.

Talvez fossem luminárias construídas para imitá-las.

Ou talvez fossem estrelas de verdade.

Não sei.

Sei apenas que sua luz suave iluminou toda a biblioteca.

Passei ali horas. Talvez dias. Talvez apenas alguns instantes. Naquele lugar, o tempo parecia ter perdido o significado.

Se eu não morasse sozinho e não fosse fim de semana, certamente teria problemas ao retornar.

Examinei pergaminhos de inúmeras épocas e povos. Havia textos em idiomas que jamais estudei. Entre eles, reconheci inscrições em grego arcaico. E, apesar disso, compreendia tudo.

Tudo.

Não sei como explicar.

Simplesmente entendia.

Por fim, alcancei a parte mais profunda da biblioteca.

Ali havia uma espécie de altar.

Sobre ele repousava uma tábua de argila diferente de qualquer outra que já vi. Sua superfície parecia emitir um brilho próprio. Toda ela estava coberta por inscrições cuneiformes.

Era sumério.

E, de algum modo, eu conseguia ler.

As palavras surgiam diante de mim como se sempre tivessem sido familiares.

A mensagem dizia:

“Você, viajante das dimensões, que encontrou nossa cidade, saiba: não fomos extintos.

Fomos transubstanciados para uma nova forma de existência, uma forma que já não habita esta dimensão.

Saiba também que sua chegada era esperada.

Quando o fim destas civilizações violentas chegar, você não irá para a cidade celeste. Tampouco descerá ao lugar das dores e das angústias extremas.

Não.

Seu destino será outro.

Você se despedirá deste planeta e peregrinará pelo universo.

Habitará planetas, planetoides e asteroides. Conhecerá povos que jamais foram sonhados pelos habitantes da Terra.

Encontrará outras civilizações.

Outras histórias.

Outros céus.

Esta será sua bênção.

Ou talvez sua maldição.

Mas assim foi determinado.”

Quando terminei a leitura, permaneci em silêncio.

Não senti medo.

Não senti alegria.

Não senti orgulho.

Apenas permaneci ali, contemplando aquelas palavras.

Depois, iniciei o caminho de volta.

Atravessei novamente as ruas vazias de Atlântida, deixei para trás seus palácios silenciosos e sua biblioteca iluminada por falsas — ou verdadeiras — estrelas.

Retornei ao meu corpo sem respostas.

E, sinceramente, ainda não sei o que pensar sobre tudo isso.

Talvez tenha sido uma revelação.

Talvez um sonho.

Talvez algo para o qual sequer possuímos um nome.

Mas uma coisa eu sei.

Minhas forças estavam completamente esgotadas.

E, diante de todos os mistérios do universo, a única decisão que me pareceu sensata foi a mais simples de todas:

Dormir.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 25/06/2026
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