

Em Um Futuro Utópico: As Confissões de um Traficante de Armas
Nós, traficantes de armas, estamos começando a ficar preocupados com uma situação específica, com potencial para prejudicar nosso negócio.
Para podermos vender nossos produtos e pagar as comissões dos oficiais dos governos que nos repassam nossa mercadoria, para que possamos revendê-la sem os altos custos e as dificuldades logísticas de recuperá-la depois, precisamos de um elemento primordial: pessoas. Precisamos de pessoas se odiando, se detestando por qualquer motivo que queiram. Política, ideologia, religião... isso é secundário. Só precisamos que se odeiem. E veja bem: o problema não está na falta de ódio. O ódio nunca foi escasso. É um dos recursos mais abundantes da humanidade. O problema está na disponibilidade de quem odeia. As pessoas estão começando a diminuir. Por séculos, isso nunca foi motivo de preocupação. Guerras consumiam pessoas, doenças consumiam pessoas, fome consumia pessoas, e ainda assim elas continuavam produzindo mais pessoas. Era admirável. Por mais que morressem, pareciam sempre encontrar uma maneira de repor o estoque. Mas algo mudou. Por uma série de motivos que não pretendo discutir — sociologia não está entre os meus hobbies —, as pessoas estão produzindo menos pessoas. E isso nos afeta. Menos pessoas significam menos ressentimentos. Menos ressentimentos significam menos ódio. Menos ódio significa menos conflitos. Menos conflitos significam menos disparos. Menos disparos significam menos armas vendidas. E menos armas vendidas significam menos dinheiro. Não me refiro à quantidade de armas disponíveis. Temos armas suficientes para séculos. Munição suficiente para séculos. O problema são armas paradas. As armas de nada valem para nós se não tivermos seus gatilhos puxados, seus comandos digitais acionados, os mecanismos das bombas detonados. Menos pessoas, menos sangue. Menos sangue, menos dinheiro. Isso me incomoda profundamente. Eu me lembro dos bons tempos, quando atravessava, sob a proteção pela qual pago muito bem, planícies inteiras na África, na Ásia, nas Américas, na Europa e até em alguns pontos da Oceania, vendo pessoas se matarem com uma dedicação emocionante. Snif... Snif... Hoje, em muitos lugares, há espaço aproveitável demais. E espaço aproveitável disponível, não é bom para o nosso negócio. As chuvas de sangue estão ficando escassas. Estamos ficando na seca. Eu acenderia velas de gordura de cavalo de guerra para o Deus da Guerra, se acreditasse em divindades. Parece que nós, traficantes de armas, teremos de ser resilientes. Não vendemos roupas de grife. Não vendemos hambúrgueres duplos. Não vendemos refrigerantes de cores quase radioativas. Vendemos uma necessidade criada pela incapacidade humana de ser sensata. Porém, teremos de nos adaptar. Eu, particularmente, acredito que existe uma oportunidade ainda mais promissora para o nosso negócio. Uma fonte renovável de conflitos. Uma matéria-prima praticamente inesgotável. A vaidade.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 14/06/2026
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