Homem Frio

Café sem açúcar, sangue com gelo.

Textos

A Magia das Cadeiras Vazias
Sexta-feira na hora de sair do trabalho não tem erro: o corpo pede calçada. Mas não qualquer lugar, eu queria a honestidade de um boteco limpo, daqueles que têm as raízes fincadas no asfalto, com mesa de plástico duro e cadeiras fortes. A mesa tinha quatro cadeiras. Para mim, só uma bastava, mas resolvi tomar uma cerveja por cada cadeira vaga. Quatro cervejas. Afinal de contas, o dia seguinte era sábado e eu tinha todo o direito de acordar tarde.
Já saí de lá sabendo como seria o roteiro: aquela sensação de corpo mole no outro dia, levantando várias vezes para ir ao banheiro e tomar muita água para rebater o álcool. É o preço que se paga para eliminar os efeitos ruins e colher só as benesses da cerveja, o que vem da terra, da cevada e do trigo. Fazendo isso, eu estaria pronto para aproveitar o resto do final de semana. Sábado de manhã é sagrado: café forte e livros, só leitura. E depois, o dia todo livre de sábado para domingo, quem sabe pegar um cinema no filme que eu bem entender. Uma liberdade que, na verdade, começou antes de eu sair de casa, quando fiquei ali, no meu canto, ouvindo aquela música repetida.
Depois desse primeiro bar, fui para outro lugar, um espaço diferente, com paredes que parecem grandes janelas. Ali mudei o tom: pedi um chopp bem gelado e um espetinho de linguiça de javali — pelo menos foi o que me garantiram no balcão desse bar mais premium. Fiquei ali de boa, vendo o sol se pôr, até que os primeiros raios da lua chegaram e me iluminaram através do vidro.
Mas o grand finale é sempre no meu próprio reino. Voltei para casa e continuei os ritos do prazer. Abri a geladeira e peguei aquele chopp que já estava guardado estrategicamente para mim. Para acompanhar, fiz outra linguiça, só que desta vez de porco mesmo. O sono já estava batendo, mas antes de me entregar, segui o meu ritual, porque eu prezo pela casa limpa: lavei as vasilhas, deixei a cozinha em ordem, tomei meu banho e fui para o banheiro escovar os dentes e passar fio dental.
Solteiro de hálito mentol, e cueca samba canção.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 19/05/2026
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