Homem Frio

Café sem açúcar, sangue com gelo.

Textos

O Tio Solteiro XXIX - Noite de Domingo
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A cerveja, herança dos faraós, é em minhas mãos um tributo à magia celta. Bebo-a em ritos: uma pela terra, outra pelo ar, mais uma pela água e a última pelo fogo. Satisfeitos os elementos do corpo, a alma ascende a um prazer diáfano. Sob o dossel das árvores e a luz argêntea da lua, caminho ébrio, mas conservo o instinto do lobo; sou a sentinela de mim mesmo até alcançar minha toca, o refúgio onde a solidão é soberana.
​No meu apartamento de solteiro, o banho e a água — mineral ou gaseificada — purificam o percurso. Desperto no breu para contemplar o silêncio e as luzes acolhedoras que desenham meu porto seguro. Por vezes, o paladar exige o gélido contraste de um sorvete, apaziguando o peixe consumido outrora. Durmo cedo para que o despertar seja uma aurora de reflexão: café, livros e um sanduíche generoso, antes que a labuta me chame.
​Minha existência é balizada por preces: as da meia-noite guardam meu amanhecer; as do meio-dia seguram meu ocaso. Contudo, antes do recanto final, há o desvio pela casa carmim. Lá, escolho a dedo a companhia e lavo seus lábios com os licores mais nobres, purificando os meus em reciprocidade. O vinho lilás nos conduz à luxúria dos lençóis rubros — um amor tórrido, efêmero, uma centelha na memória.
​Findo o ato, retorno à minha magia pessoal. No leito largo, onde a vastidão do espaço celebra minha autonomia, deito-me só. Pois ali, entre o sonho e a vigília, sou o único monarca de meu destino.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 12/04/2026
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