

Lobo em Pele de Polícia
O Rastro do Azul Escuro Não escolhi o sangue que corre nas minhas veias, nem a herança que o destino depositou no sétimo filho de um sétimo filho. A lenda, que para muitos não passa de folclore para assustar crianças, para mim é a arquitetura da minha solidão. Sou o que chamam de lobisomem, mas as histórias de ninar esqueceram de mencionar que, após o despertar da primeira lua cheia, a fera não espera mais pelo ciclo lunar. Ela se torna uma visita noturna constante. Aprendi que lutar contra o que se é, é a forma mais rápida de se perder. Eu me entreguei. Não à barbárie cega, mas à integração. Não controlo o momento da transformação — a carne rasga e os ossos se quebram quando a noite exige — mas aprendi a governar o que faço sob essa pele. Tirei proveito do que o mundo chama de maldição. Minha vida é um exercício de silêncio. Não tenho amor, não busco companheira. Uma mulher seria um flanco aberto, uma vulnerabilidade que não posso me permitir. E jamais passarei adiante esse fardo; a linhagem termina em mim. De dia, visto a farda. Sou o policial exemplar, o homem dos manuais. Suporto o olhar de desprezo de alguns colegas e a crítica dos que me acham "frouxo" por não prender criminosos notórios quando o conjunto probatório é fraco. Eu os deixo falar. Juízes e promotores me respeitam pela minha técnica impecável, mas eles não sabem que o meu verdadeiro distintivo é o olfato. Na noite passada, o cheiro me encontrou. Um odor acre, podre, de quem negociava a vida de pequenos inocentes para destinos inomináveis. Onde o Direito Penal exige provas documentais e testemunhos que nunca aparecem, meu instinto exige apenas a presença. O cheiro dele se tornou inesquecível. Sob a luz fria e a energia que eu sinto como um manto azul escuro, eu o rastreei. Nas terras onde eu governo sob a sombra, nem os criminosos mais cruéis ousam caminhar; eles sentem a densidade do ar, a vibração sombria que emana do solo. Encontrei-o. A justiça que apliquei não precisou de tribunais. Foi rápida, visceral e definitiva. Depois, retornei ao meu antro, enquanto o mundo dormia sob a ilusão de segurança. Hoje cedo, no plantão, o assunto era um só. A perícia e a necropsia confirmaram o que todos já suspeitavam: o sequestrador foi abatido por uma fera. Um dos poucos colegas que me apoia, enquanto tomávamos café com pão de queijo, comentou com um brilho de satisfação nos olhos: — É incrível, não é? Parece que o Eterno cobra. E se alguém não acredita nele, o Universo dá um jeito de cobrar a conta. Eu apenas assenti, sentindo o calor do café contra o peito que, horas antes, rugia sob o céu aberto. — Concordo — respondi. Limpamos as migalhas da mesa e fomos trabalhar. O policial exemplar estava de volta, mas a fera, satisfeita, apenas aguardava o próximo rastro.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 12/04/2026
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