

O Crepúsculo da Intercessão: O Relato do Último Eremita
No recôndito de meu eremitério, onde a vida flui sob o signo da frugalidade e da temperança, mantinha o ritmo de uma existência devotada à transcendência. Entre as paredes de uma choupana erguida para a meditação e o manuseio de livros escolhidos, papéis e penas, minha rotina era um entrelaçamento de preces e súplicas pela humanidade. Quantas vezes, em espírito, projetei-me sobre as alas hospitalares, sob a égide de anjos cujos nomes me eram sussurrados, servindo minhas mãos como canais para os raios curadores do Eterno.
Em uma tarde de calor parsimonioso, enquanto me encontrava sob o pergolado de videiras que brotam entre as rochas, dedicava-me a compor um poema ao Rei da Eternidade. Foi então que a realidade se dobrou: Orel, um dos Anjos da Misericórdia, materializou-se diante de mim. Seu olhar, outrora portador de alento, trazia agora o peso da despedida. — "Venho despedir-me, profeta e mestre", disse-me ele com voz de cristal. "Recebemos ordens para ascender. Os Anjos da Ira receberam o comando para descer." Indaguei-lhe, com o coração envolto em perplexidade, sobre o destino das almas. Orel revelou um plano de profunda e terrível harmonia: o tempo da complacência findara. O Rei da Eternidade me impunha, então, um novo e severo mandamento: não mais orar pela regeneração dos maus, mas aceitar a justiça das dores latentes e da morte vagarosa que nem as cavernas mais profundas poderiam ocultar. Ao elevar a mão em um adeus definitivo, Orel alçou voo, iluminado por um raio que rasgava as nuvens alvas. Vi, então, miríades de outros anjos conhecidos partindo de todos os cantos do planeta. Contudo, a vacuidade luminosa durou pouco. O céu, antes sereno, tornou-se tenebroso, cortado por raios de fogo que anunciavam a descida das formas colossais e terríveis dos Anjos da Ira. Nesse momento, tive uma visão de um contraste de indizível beleza e horror: enquanto as espadas flamejantes dos executores desciam, ferindo os corpos dos algozes com o flagelo da lepra, o avanço do câncer e a putrefação da gangrena, as vítimas e os humildes eram subitamente libertos por milagres que desafiavam a compreensão humana. Vi-os sendo retirados de seus cativeiros e leitos de dor, guiados por um instinto divino e infalível, como se um magnetismo sagrado os conduzisse sob a sombra das asas protetoras para os abrigos de refrigério. Lá, nesses refúgios sagrados, eles seriam nutridos e restaurados, permanecendo em absoluta paz até o breve momento de sua abdução definitiva. Enquanto isso, o ar em torno do meu eremitério era impregnado pelo enxofre do sofrimento daqueles que escolheram a maldade. Minha choupana, protegida por um véu de invisibilidade como uma Atlântida espiritual, permanece em paz. Daqui, observarei o acerto de contas da eternidade, influenciando o futuro em silêncio, até que me seja permitido trilhar o caminho de Enoque. O tempo da intercessão fenecerá; o tempo da ira do Eterno chegou.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 10/04/2026
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