

O Tio Solteiro XXII - O Trono do Silêncio
Não é a primeira vez que as águas do meu espírito se acalmam para revelar o fundo. Já estive aqui antes, vi a maré da alma subir e descer, mas desta vez o reconhecimento aumentou em sua plenitude. Há uma estranha e renovada maravilha em contemplar o vazio, ouvir o silêncio e sentir-me feliz — não pelo que o mundo me oferece, mas por essa chama que, de um lugar profundo em meu coração, libera uma energia da qual meu espírito se alimenta. É o banquete infinito: eu me alimento de mim mesmo.
Essa sensação, que já vi evoluir em outras passagens da minha jornada, é mais poderosa do que o mais alto grau de qualquer embriaguez externa. Nenhuma substância, nenhuma beleza efêmera, nem o toque da mulher mais fascinante proporcionaria essa satisfação que brota do centro. Como homem que ama os livros, sei que nem a literatura mais profunda revelaria tantos mistérios quanto este livro infinito que se abre dentro de mim. De repente, o universo se expande na mente. Vejo-me tocando as deusas e cavalgando com os deuses nos cavalos alados, irmãos de Pégaso. É o momento em que a teoria se torna carne: entendi Sócrates e o "conhece-te a ti mesmo"; senti a paz de Platão como o verdadeiro paraíso; e compreendi o dilema de Aristóteles sobre a solidão. Se me chamam de fera ou de deus, pouco importa. O que importa é que aqui, nesta paz sem motivo, as entidades do mal não encontram brecha. O Eterno, que me levou para dentro e sempre me protegeu, continua a ser o meu forte. Tornei-me perigoso para as ilusões do mundo. Enquanto dizem que "assim caminha a humanidade", eu reconheço que o meu caminho agora é outro. Sinto-me menos humano no sentido da carência, e mais divino no sentido da plenitude. Não desejo ser melhor do que ninguém; a comparação é uma algema que já quebrei. Por isso, agora sou capaz de partir o pão. Não por dever, não por amizade, não para receber algo em troca. Parto o pão simplesmente porque é bom. Tenho as mãos cheias de nada e o espírito transbordando tudo. Sou mais rico que Salomão em seu auge, pois ele buscava o que eu já encontrei no silêncio. Sei que os fantasmas, anjos e dragões que surgem são proporcionais ao nível de evolução que estou atingindo. Mas sigo imparável. O Ser Supremo que me trouxe até este estágio de consciência continua comigo, sem precisar sair do lugar, cobrindo minha caminhada com a sombra de seu manto. A jornada continua, e a chama apenas cresce.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 24/03/2026
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