

O Tio Solteiro
Fiz meu check-up médico, anual, completo, tudo bem com minha saúde, peguei a estrada para Monte Negro, atenção aos perigos, inclusive as sutilezas do perigo humano.
A estrada está molhada com chuva ao fim da tarde, e o sol tem aquele dourado dos livros de C.S. Lewis, bebo água com gás da caixinha térmica, mesmo sabendo que estou sozinho, olho para os lados para me manter ligado, mando um arroto. A música tá no meu ritmo, ágil e calma, deslizando sob meu queixo enquanto danço com cabeça, vou passar em Tubarão no caminho, avisei pra ela que teremos uma noite de vinho tinto e lençóis brancos, ela disse que tá com saudade. Depois, é mais um bocado de rodovia para chegar na festa de família, minha tia intrometida vai tentar me apresentar alguma mulher, vou pular fora na elegância. Estou levando quatro caixas de cerveja, um pernil de porco, roupa de cama no banco de trás, minha vó vai me obrigar a dormir com as dela, e lavar as minhas, mesmo estando limpas. Meu sobrinho vai me procurar empolgado para conversar, porque quer ser solteiro profissional, tal qual eu. Minha cunhada vai ficar puta, meu irmão vai rir demais, e eu serei gentil com ele, mesmo sabendo que ele não conseguirá, minha sobrinha vai me chamar de machista, chovinista, porco capitalista, e coisas assim. Eu não ligo, me diverti, gosto dela. Antes de voltar, vou à Festa da Cerveja, já reservei um quarto na pousada, com carne enlatada, doce, e água mineral a rodo. A Dona Carminha vai colocar um colchão ao lado do cachorro, um Doberman chamado Alco, para o caso de eu chegar bêbado como um gambá. Então voltarei para casa, para meu fletch, um quarto, uma sacada, uma sala, uma cozinha, TV streaming, livros, é um Kindle. Trabalho na semana, escolhas toda noite.
Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 27/02/2026
Alterado em 27/02/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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