Homem Frio

Café sem açúcar, sangue com gelo.

Textos

O Gato-de-Pallas III - Cosmos



Eu venci.
No duro teste da maior empresa especial do mundo, eu me dei bem.
Escolheram o Deserto dos Desertos, na África Ocidental, 24 meses completamente isolado, com provisões de água, e comida, um diário, e alguns livros que escolhi da lista oferecida.
Sem qualquer comunicação, nada, a empresa montou o que seria uma estação em Marte, e me jogou lá, assim como fez com outros, em outros pontos.
O lugar é tão fodido, que nem fauna visível tem, flora então, só se tiver plantas de pedra.
O silêncio é tao feral, que um surdo ficaria deprimido.
Se eu me machucasse, teria que me cuidar, se começasse a ficar afetado pela solidão, teria que me controlar, ou apertar o botão azul, estaria fora para sempre.
Mas eu passei por tudo na letra maiúscula, na verdade, eu curti, como efeito colateral, desenvolvi a característica de falar baixo para o resto da vida, não que eu falasse alto antes.
As estrelas apareciam gigantes à noite, era lindo, porém as noites tenebrosas de nuvens intensas, eram de um cinza assustador, mas eu estava sozinho, pois nem fantasmas encaravam o lugar para me assombrar.
Segui as rotinas diárias, pesquisas, anotações, e depois, a quietude titânica, eu bebi o silêncio.
Os livros foram lidos com um tempero diferente de café direto da garrafa térmica, e as vozes das personagens mais vivas em meus pensamentos.
Quando eu já nem queria lembrar, ouvi o barulho dos helicópteros, porcaria...
Eu estava magro, porém com o cuidado corporal, saúde física e mental mantidas.
A equipe médica e psicológica ficou impressionada, e eu não fiquei surpreso com as histórias dos outros participantes, mulheres chorosas dizendo que queriam ver as pessoas que amam, os caras simplesmente desistiam, testemunhando suas experiências e crescimento.
Todos se renderam.
Já eu, ganhei uma linda instalação especial em outro deserto, onde continuarei sendo monitorado, mas não em tempo real, as visitas estão programadas, terei minha privacidade respeitada, mas avisarei se me ausentar.
Sonho com o dia no qual deixarei a humanidade.
Para sempre.


Aleen Van Euller
Enviado por Aleen Van Euller em 25/01/2026
Alterado em 25/01/2026
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